Ao menos uma mulher é vítima de violência por dia no Vale, diz polícia

Desde o início do ano, 233 pessoas foram presas por estupro ou agressão. Segundo especialista, números não refletem realidade por falta de registro.

Mulher foi morta por companheiro durante visita em presídio no começo deste ano (Foto: Renato Ferezim/TV Vanguarda)

Ao menos uma mulher sofre algum tipo de violência por dia no Vale do Paraíba. Segundo a Polícia Civil, somente nos seis primeiros meses deste ano 233 pessoas foram detidas por crimes contra mulheres na região. Para especialistas, como o jurista Avelino Barbosa, os dados ainda não mostram a realidade do Vale, pois a maioria das ocorrências não são denunciadas.

Um levantamento da polícia, feito a pedido do G1, levou como base as detenções feitas de janeiro a junho desse ano por estupro e agressão. Em números absolutos, a área que concentra o maior número de casos é a Seccional de São José dos Campos, com 68 ocorrências.

No entanto, proporcionalmente, a região com maior incidência de violência contra mulher é a de Cruzeiro - com uma população de 60.609 mulheres em oito cidades, segundo o IBGE, e 26 ocorrências, a média no período foi de uma mulher agredida para cada grupo de 2.331.

Em seguida, a maior incidência é na Seccional de Guaratinguetá, com uma população de 165.428 mulheres em oito cidades e 45 casos de violência, a média foi de uma mulher vítima de violência para cada grupo de 3.676 no período.

Trauma Em junho, uma advogada de 25 anos foi estuprada em São José dos Campos. O crime aconteceu no dia 31 de maio, quando a jovem deixava o trabalho no centro. No dia seguinte, a polícia revelou em sua página nas redes sociais o retrato falado do suspeito. O homem foi preso no dia 3 de junho.

Mesmo com o homem preso, a jovem faz acompanhamento psicológico para tentar superar o medo. Ela ficou duas semanas sem dirigir e trocou o carro temendo ser identificada.

Advogada foi vítima de estupro em São José (Foto: Reprodução/TV Vanguarda)

“Eu tive sorte, consegui superar a dor da violência de ser estuprada e seguir em frente. Claro que ficaram as marcas, mudei minha rotina, tenho medo de sair sozinha a noite, troquei meu carro. Mas não deixei a violência que eu sofri me parar”, diz a advogada que não quis ser identificada.

Neste ano, 15 homens foram presos por estupro na região de São José dos Campos. Segundo o advogado Avelino Barbosa, que atua no Grupo de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual (GVVIS) de Taubaté, a estatística ainda está longe da realidade. Isso porque em muitas vezes a mulher não registra a ocorrência.

“A violência contra a mulher muitas vezes está dentro de casa. Isso coloca um obstáculo maior que outros crimes, porque existe a dependência emocional e financeira desse parceiro. O agressor se impõe, eles as dominam e ameaçam. Tomadas por isso, temendo por si e pelos filhos, na maior parte das vezes as que chegam até nós nunca denunciaram seus agressores e nem vão fazê-lo”, explica.

Segundo o grupo, a média de atendimento por estupro no local é de seis mulheres por semana em Taubaté. Os dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) apontam o registro de 19 ocorrências de estupro até maio e duas pessoas presas.

Débora Carvalho foi assassinada pelo companheiro no CDP de Caraguá (Foto: Reprodução/TV Vanguarda)

Homicídios O reflexo da falta denúncia é a continuidade das agressões que, muitas vezes, terminam de maneira trágica. Os dados de violência contra a mulher informados pelas delegacias a pedido do G1 não incluem os homicídios - a Secretaria da Segurança Pública não distingue nos indicadores os assassinatos por gênero. A reportagem fez um levantamento dos casos publicados desde o início deste ano. Segundo a pesquisa, foram 15 ocorrências tendo mulheres como vítimas fatais.

Entre elas, está o assassinato de Débora Carvalho, de 33 anos. Ela foi morta durante a visita ao marido que estava preso no Centro de Detenção Provisória de Caraguatatuba em janeiro. O companheiro, 38 anos, respondia por tentativa de homicídio depois de tentar matá-la.

Segundo um parente, ele tentou matá-la a facadas, mas o filho de 14 anos conseguiu tirar a arma do padrasto e o homem foi preso em flagrante. No entanto, ela chegou a contratar um advogado para tirá-lo da cadeia. À época da visita, a família conta que ele chegou a ameaçá-la e por isso teria ido até lá. Débora foi morta sufocada por uma corda improvisada com sacos de leite dentro do CDP. Ela deixou o filho de 14 anos e um de dois anos, que tinha com ele.

“Ele tinha outras passagens por Maria da Penha, mas nós não sabíamos. Não sabíamos quem ele era e o que ela sofria. Isso causou a dependência, ele tinha poder sobre ela e terminou assim. A minha família está desestruturada, ela deixou dois filhos. O mais velho até parou de estudar”, conta Renato Alves, primo da vítima.

A delegada assistente da Seccional de São José dos Campos, Renata Lourenço, diz que o que acentuam esses tipos de violência são as bebidas e drogas.

“A gente não prevê, não consegue combater em muitos desses casos. Essas mulheres estão ligadas emocionalmente a esses homens e são coagidas em casos de estupro. A gente reforça sempre que nosso trabalho é de suporte e apoio, acolhemos essas pessoas. Temos medidas protetivas para protegê-las dos agressores. Mas para que o homem seja efetivamente preso, dependemos da iniciativa delas de não retirar as queixas”, disse Renata.

A delegada ainda explica que as mulheres atendidas são encaminhadas para atendimento médico, psicológico e recebem acolhimento em abrigo.

Fonte: http://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2016/07/ao-menos-uma-mulher-e-vitima-de-violencia-por-dia-no-vale-diz-policia.html

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